A dança na intersecção de conhecimentos
Lela Queiroz

Se dançar “faz bem para o corpo e a alma”, vale lembrar que a raiz de alma em grego é psique. Dançar faz uso intenso dos músculos, respiração e energia, compondo um campo de modificações internas. A dança é forte candidata a instrumento terapêutico, quando trabalha a percepção sensório-motora: esta é a chave. Problemas posturais, de articulações, couraças musculares, tensões, fobias, LERs e stress recebem tratamento na Educação Somática com abordagem mente-corpo. A reabilitação, alívio, tonificação e reequilíbrio das funções agem na cura e prevenção, e proporcionam novas capacidades expressivas. O profissional qualificado de dança requer além de uma boa formação certificada, aprofundamento cognitivo das ciências do corpo, coerência de prática, reflexão e ética para atuar no mercado de trabalho, cheio de contradições. 

Quem busca o auto-conhecimento através da propriocepção acaba por iniciar um processo que viabilizará transformações profundas. Essa jornada o levará a descobertas que também o questionarão emocional e psiquicamente. “Corpo em terapia”, de Alexander Lowen (1977), e “Couraça muscular do caráter”, de Angelo Gaiarsa (1984), são obras que impulsionaram vertentes na área da dança. Henry Wallon, psicólogo geneticista, demonstrou que as emoções se fundam no tônus muscular (Alexander, 1991). Antônio Damásio, neurologista, ensina: “Em resumo, estados emocionais são definidos por uma coleção de mudanças no perfil químico do corpo, por mudanças no estado das vísceras, e por mudanças no grau de contração de vários músculos estriados da face, pescoço, tronco e membros”. Segundo ele, a medicina tradicional sempre negligenciou as implicações da mente no corpo e é responsável em certa medida pelo relativo sucesso das práticas alternativas. 

Outro comportamento muscular corresponderia, então, a outro comportamento emocional. A desestruturação de condicionamentos de “segunda natureza” aumenta o fluxo energético, modifica a carga muscular, mobiliza uma mudança relativa a algum tipo de estado emocional associado a ela. A Faculdade de Dança Angel Vianna, no Rio, foi pioneira nesta abordagem com profissionais recrutados pelo Centro de Reabilitação Sara Kubitschek, em Brasília (1994). Seus bailarinos, com formação em conscientização, somática e dança, já, na época, detinham conhecimentos na intersecção de saberes, com habilidades para gerar o alívio e os avanços reais na cura, incluindo a auto-estima e energia dos pacientes. 


Fundamentos em âmbitos inovadores

Jorge A. Vieira, físico da PUC-SP, aponta que é em função do conhecimento tácito e anterior ao racional e discursivo que se fundamenta a arte da dança. Vale destacar que diversas psicoterapias corporais aliam-se à psicossomática e, em discursos dualistas sobre o corpo, buscam a recuperação funcional do organismo, valendo-se sobretudo da biomecânica e motricidade, guiados pela estática. O salto da Educação Somática está em entender o organismo de forma dinâmica pela via sensório-motora, impulsionando a cognição. A dança, porém, tem a vantagem de unir as soluções criativas às funcionais. 

Como exemplo, a Somática BMC alia a precisão de cinesiologia, anatomia e fisiologia a procedimentos especializados capazes de reorganizar internamente princípios neurológicos evolutivos do movimento, emergentes da dinâmica entre organismo e self, com implicações psico-físicas de repadronização. O método de conscientização iniciado por Klauss Vianna, detém-se sobre a relação mente-corpo, na medida em que a reestruturação músculo-esquelética promove boa faxina na psique. Dessa forma, retira os modos viciados em que a emoção é empregada em geral. Leve em conta essas diferenças cruciais, ao escolher um caminho a seguir na dança como instrumento terapêutico.



Referências bibliográficas:

ALEXANDER, Gerda.1991 - Eutonia, São Paulo, Ed. Martins Fontes.

COHEN, Bainbridge B.1993 - Sensing, Feeling and Action. Mass: Contact Editions. ISBN 0-937645-03-6

DAMÁSIO, Antonio R.1996 - O Erro de Descartes, São Paulo, Companhia das Letras. 

QUEIROZ, Lela. 2001 - Cartilha Desarrumada: Trânsitos e Circuitações em Klauss Vianna. 151p. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica), PUC-SP (Mimeo).
 
VIEIRA, Jorge A. 2003 - Dança e Semiótica, São Paulo, Ed.UniverCidade.

Lela Queiroz é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, especialista como Educadora Somática BMC Certificada e pesquisadora Capes-CNPQ
e-mail: estudio@dancai.net e Tel.: 11 3167-4198
website: www.dancai.net

 


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