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A Amazônia pode se desenvolver com a bioeconomia da floresta em pé

Atualizado: 10 de ago. de 2023

A conservação da integridade da Amazônia é crítica para mitigar duas crises planetárias: a climática e a da perda de biodiversidade que ameaça diferentes formas de vida, além do aprofundamento das desigualdades econômicas


Quantas vezes você já ouviu a frase que já virou jargão: “onde há risco, há oportunidade”? Muitas, certamente. Mas, na Amazônia, ela se aplica em todas as dimensões, a do Planeta, dos nove países da região incluindo o Brasil, dos 9 estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal (AML) e seus habitantes e de quem tem interesse em investir economicamente no local.


Em qualquer uma delas, porém, o desafio é enorme, pois “a Amazônia é única”, como bem ressaltou o WRI Brasil em um dos seus artigos sobre o tema. “Um novo paradigma econômico para a maior floresta tropical do planeta também deve ser (único)”, conclui, referindo-se a uma busca que começa a interessar à sociedade brasileira.


O pressuposto para qualquer movimento neste sentido é manter a floresta em pé, cujo principal valor está em jogar um papel vital na regulação do clima global e regional, influenciando os padrões de chuva e absorvendo grandes quantidades de dióxido de carbono. Preservá-la significa evitar que chegue a um o “ponto de não retorno”, em que perderia sua capacidade de se autorregenerar, aniquilando todo o potencial da região.


BOMBA BIÓTICA AMEAÇADA


Tomemos dados compilados pela CNN Brasil:


“Segundo dados do Amazônia Protege, a região coloca diariamente 20 bilhões de toneladas de vapor de água por dia. Ela influencia o clima e garante chuvas para toda a área delimitada pelo quadrilátero Cuiabá-São Paulo-Buenos Aires-Cordilheira dos Andes — região que concentra 70% do PIB de toda a América do Sul.”


A região muitas vezes chamada de “bomba biótica” devido a essa umidade que libera na atmosfera, paradoxalmente, também é prejudicada pelas mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global, sofrendo os seus efeitos no aumento da frequência de eventos extremos, como secas e enchentes, que a prejudicam. A perda da floresta, porém, alteraria o ciclo hidrológico, levando a secas ainda mais frequentes e graves.


O estoque de carbono atribuído à floresta é de 120 GtC acima do solo, o equivalente a doze vezes as emissões anuais resultantes das atividades econômicas globais. As queimadas e o desmatamento, causado principalmente pela exploração ilegal de madeira e minerais, expansão de práticas agrícolas ultrapassadas, e a conversão de terras para pastagens (soja e boi, particularmente), liberam parte deste carbono na atmosfera contribuindo para o efeito estufa.

Objeto de debate e controvérsias entre os cientistas, o desmatamento já passa dos 18%. Especialistas avaliam que, se não cessar, o ponto de não retorno, cujo limite está na faixa dos 20% a 25%, poderá chegar em menos de 10 anos. A partir daí, os efeitos seriam irreversíveis, transformando a maior floresta tropical do planeta em uma savana. A transição da floresta para uma savana reduziria sua capacidade de atuar como sumidouro de carbono, agravando as mudanças climáticas, com danos colaterais à agricultura, aumento do nível do mar e possíveis inundações de cidades litorâneas.


DESAFIO ALÉM DO ESTADO


Evitar o ponto de não retorno da floresta, bem como combater o crime organizado que avança assustadoramente na Região Amazônica, requer uma visão sistêmica e os esforços coordenados de governos, sociedade e mercado. A Cúpula da Amazônia, realizada nos dias 8 e 9 de agosto, em Belém (PA), foi uma oportunidade para estender aos outros 8 países da região a meta do governo brasileiro de zerar o desmatamento até 2030 ou mesmo antes, como sugerem alguns estudiosos, devido ao avanço acelerado da crise climática. Mas não ocorreu (ver Declaração de Belém). Ficará para a agenda futura da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).


Cientistas têm alertado que, além de deter o desmatamento, é preciso avançar na regeneração da floresta, especialmente da que foi devastadoramente desmatada. Um projeto do climatologista e pesquisador Carlos Nobre, o “Arco da Restauração Florestal”, propõe restaurar 50 milhões de hectares no sul da Amazônia, entre o leste e o sul do Pará, envolvendo Mato Grosso, Rondônia e Acre. É aí, em projetos desse tipo, que começam as oportunidades para o mercado. Entre elas, as dos créditos de carbono.


VARIEDADE DE RIQUEZAS LOCAIS


A conservação da integridade da Amazônia é crítica não só para mitigar as mudanças climáticas, mas também para proteger a sua rica biodiversidade, que abriga quase 25% de todos os seres vivos do mundo. São 40 mil espécies de plantas, mais de 400 tipos de mamíferos, mais de 3 mil espécies de peixes e 1,3 mil pássaros. O ponto de não retorno da floresta resultaria em extinções em massa e na perda de habitats essenciais.


Com quase 6, 2 milhões de Km² (60% no Brasil), o bioma detém um quinto de toda a água doce da Terra, 45% de toda a água subterrânea do país e mais de 25 mil Km de rios navegáveis (63% da bacia hidrográfica no Brasil).


Refletindo a diversidade e complexidade da região, o capital intelectual na Amazônia se concentra em uma ampla variedade de setores e áreas de conhecimento de profissionais, organizações e redes, que vão muito além de suas fronteiras. Nacional e internacionalmente.


O ecossistema de negócios e inovação Jornada da Amazônia criou até o termo “capacidade amazônica”. De acordo com um de seus conteúdos, “o termo considera a vocação e a oportunidade do território amazônico de estabelecer um modelo de desenvolvimento que une prosperidade econômica com sustentabilidade, além de traçar uma perspectiva estratégica sobre a floresta, tanto como provedora de recursos quanto por sua essencial contribuição para o clima”.


Dentro dessa “capacidade”, destaca-se o vasto conhecimento tradicional sobre plantas, sua utilização medicinal, alimentar e cultural acumulado pelos 198 povos indígenas locais e que vem obtendo crescente reconhecimento da sociedade brasileira.


UMA ECONOMIA VERDE E INOVADORA


Como aproveitar melhor tudo isso, substituindo o modelo de desenvolvimento econômico atual fortemente calcado na exploração de recursos naturais e outras formas convencionais por outro, sustentável para a sociobiodiversidade da região?


“A economia da AML atual é deficitária nas transações comerciais e superavitária em emissões, com transações altamente intensivas em carbono”, constata um dos principais estudos recentes que apontam na “bioeconomia da floresta em pé” uma estratégia de desenvolvimento extremamente promissora para gerar renda e emprego à população, evitando a tentação dos investimentos em petróleo e respeitando o modo de vida das comunidades indígenas.


Um dos principais deles, a “Nova Economia da Amazônia” (NEA), foi desenvolvido pelo WRI Brasil e The New Climate Economy em parceria com 75 pesquisadores e outras organizações. Deixa claro que “investimentos em conservação e expansão dos ativos naturais, fortalecimento da bioeconomia, e adaptação da agropecuária e da matriz energética à baixa emissão de carbono na Amazônia Legal (AML) resultariam em uma economia mais qualificada e de melhor performance do que aquela baseada na continuidade da expansão de atividades intensivas em carbono”.


“Do ponto de vista da biodiversidade e potencial de mercado, análises apontam que a rentabilidade por hectare de ativos da bioeconomia, como alimentos, é quinze vezes superior à rentabilidade por hectare do gado”, conclui outro estudo publicado no relatório “Ecossistema de Alimentos da Amazônia”, da RG Think Food e ekuia amazônia food lab.


O foco na bioeconomia, junto com os sistemas regenerativos, também se destaca entre as iniciativas que apoiam organizações de impacto atuantes na Amazônia, comprometidas com o desenvolvimento sustentável e mapeadas por mais uma pesquisa. “Caminhos para a Amazônia” revela que aproximadamente 90% das iniciativas pesquisadas possuem algum foco temático, sendo a bioeconomia e sistemas regenerativos os principais.


Além da restauração florestal e o fim do desmatamento, outras transformações, no entanto, são necessárias para que uma sociobioeconomia prospere na região. Entre elas, expandir a própria bioeconomia, descarbonizar a agropecuária e a matriz energética e alinhar o financiamento com um desenvolvimento de baixo carbono. Como ressalta ainda o WRI Brasil, a bioeconomia proposta pela NEA tem as seguintes características:


o Preserva a floresta em pé e os rios fluindo.


o É capaz de se ajustar à biocapacidade do bioma.


o Prevê atividades econômicas que não quebrem os complexos equilíbrios ecológicos.


o Une tradição e inovação.


“A Nova Economia da Amazônia pode ser a grande catalisadora da descarbonização de toda economia brasileira e a maior oportunidade de desenvolvimento econômico e social da história contemporânea do país", escreve Fernanda Boscaini, diretora executiva do WRI Brasil, na apresentação da NEA. Considerando que a Floresta Amazônica em pé pode render até R$ 7 trilhões/ano, de acordo com o Global Value of Ecosystem Services, não há motivos para discordar.


Pesquisa: colaboração do GT Inovação da ABRAPS

Crédito da imagem: Andre Deak by Wikimedia licenciada CC BY 2.0


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